ERVING GOFFMAN
Para Goffman (2007) na sociedade civil as pessoas dormem, brincam e trabalham em diferentes espaços, interagem com outras pessoas. Numa instituição total isto não é vislumbrado (…) “seu caráter total é simbolizado pela barreira à relação social com o mundo externo e por proibições à saída que muitas vezes estão incluídas no esquema físico – por exemplo, portas fechadas, paredes altas, etc. (p. 16).
Outra característica central de um instituição total é o fato de apresentar “dois mundos sociais e culturais” (p.20) num mesmo local: um primeiro, constituído por quem está internado, e um outro, considerado pelo grupo de faz a gestão das ações, das providências para os internados, ou seja, a equipe dirigente. Aponta o autor que “cada agrupamento tende a conceber o outro através de esteriótipos limitados e hostis” (p. 19), o que reforça uma postura distanciada entre eles.
A vida em grupo estreitada por laços afetivos – família – não está compatibilizada à instituição total:
“A vida familiar é às vezes contrastada com a vida solitária, mas, na realidade, um contraste mais adequado poderia ser feito com a vida em grupo, pois aqueles que comem e dormem no trabalho, com um grupo de companheiros de serviço, dificilmente podem manter uma existência doméstica significativa”. (GOFFMAN, 2007, p. 22)
Desta forma, nota-se que a função social das duas instituições – família e total – são consideradas com diretrizes opostas: enquanto a família aplica suas forças para cada membro ser livre, autônomo, que desenvolva diferentes papéis na sociedade, a instituição total trabalha na contra-mão, na perspectiva da homogeneização e institucionalização. A separação do internado e o mundo externo representa uma ruptura a esta possibilidade que a família lhe oferece, o que Goffman (2007) considera como a primeira descaracterização do indivíduo, ou seja, processo de “perda e mortificação do eu”.
Ao adentrar uma instituição total, o internado depara-se com mais uma difícil tarefa: “despojar-se de seus bens” (p. 27). Nesta privação da posse de seus pertences facilmente percebe-se a desconstituição do “eu” do internado: lhe é oferecido um uniforme, agora, seu único pertence. A sua aparência também é desfigurada: cortes de cabelo que provocam a padronização dos internos. É clara a perda do conjunto de sua identidade. Pode-se agregar ainda: o cumprimento às regras, tarefas, regulamentos da instituição; os castigos físicos; a forma como o internado refere-se à equipe dirigente; a denominada “exposição contaminadora” (p.31) – “dossier” do internado à disposição da equipe dirigente, “exposição contaminadora do tipo físico” (p.34) – que significa um contato interpessoal imposto, o intitular de apelidos, etc.
A fim de garantir a ordem e a disciplina no desenrolar das atividades da instituição total, a equipe dirigente estabelece uma espécie de “sistema de privilégios”, que pode garanti-los ou retirá-los, na medida em que ganha-se o castigo (GOFFMAN, 2007, p.51).
Afirma o autor sobre a relação internados e equipe dirigente:
“O sistema de privilégios e os processos de mortificação, já discutidos, constituem as condições a que o internado precisa adaptar-se. Tais condições permitem diferentes maneiras individuais de adaptação, além de qualquer esforço de ação subversiva coletiva. O mesmo internado empregará diferentes táticas de adaptação em diferentes fases de sua carreira moral, e pode alternar entre diferentes táticas ao mesmo tempo”(p.59)
Tanto o processo de mortificação do “eu” quanto o sistema de privilégios devem ser encarados como situações que compõem a adaptação do internado à instituição total.
ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA
Para Costa, que propõe um projeto de socioeducação que deva ser construído no Brasil aliado à educação geral e profissional, o significado de “socialização” e “presença” devem ser discutidos com afinco, para a apropriação de uma Pedagogia com sentido, efetiva, de significado. Ele afirma que “a verdadeira socialização não é uma aceitação dócil, um compromisso sem exigências, ou uma assimilação sem grandeza. Ela é uma possibilidade humana que se desenvolve na direção da pessoa equilibrada e do cidadão pleno. (p. 7) A aposta no sujeito era o foco de Costa.
“A Pedagogia da Presença é parte de um esforço coletivo na direção de um conceito e de uma prática menos irreais e mais humanos de educação de adolescentes em dificuldades. Contribuir para o resgate da parcela mais degradada, em termos pessoais e sociais, de nossa juventude é, sem dúvida alguma – embora apenas um número reduzido de pessoas realmente acredite nisto – uma das grandes tarefas do nosso tempo”[1]
A “presença” considerada pelo autor com sentido bastante amplo: é mais do que garantir que o professor ou socioeducador esteja ao lado do aluno / internado, algo exterior. Pelo contrário, é considerada por ele como reciprocidade, acompanhamento no sentido de estabelecimento de vínculo, afetividade, compreensão, doação e aceitação do outro.
Costa ensina que sobre esta “presença”: “pela proximidade do educador se acerca ao máximo do educando, procurando identificar-se com a sua problemática de forma calorosa, empática e significativa, buscando uma relação realmente de qualidade”. As possibilidades do aluno / adolescente em conflito com a lei enquanto indivíduo, constituídas a partir do momento de seu nascimento, deverão ser resgatadas pela educação / socioeducação, o que segundo Costa, colabora para uma “justiça social”.
A caracterização do trabalho de Costa demonstra linha oposta ao que as instituições totais entendem com adequada para o atendimento de adolescentes em conflito com a lei.
PICHON-RIVIÈRE
Pichon-Revière (2005) faz apontamentos acerca dos implicantes nas relações de um grupo. Para tal, o define:
“grupo como o conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, e articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe, de forma explícita e implícita, uma tarefa que constitui sua finalidade” (p. 242-243)
O grupo para organizar-se, constitui uma interação (p.243), que pode caracterizar-se pela técnica operativa: instrumento do grupo para a concretização de seu objetivo. No vislumbrar de uma ação para efetivar a idealização comum, o autor aponta que duas “ansiedades básicas” devem ser consideradas como pano de fundo de uma nova apropriação: 1ª) O “medo” de sair do lugar comum, do que já se conhece, se tem “equilibrado;
2ª) O “medo”da nova situação, do desconhecido, de não estar devidamente preparado para recebê-lo.Tais aspectos representam movimentos necessários para a constituição da unidade do grupo.
Sobre a tarefa do coordenador: é o articulador das ações, “sua tarefa consiste em refletir com o grupo sobre a relação que seus integrantes estabelecem entre si e a tarefa prescrita”. (p. 246) A definição de papéis, a possibilidade de superação de obstáculos no grupo, bem como a aproximação / distanciamento deste grupo com relação à tarefa, é o coordenador quem equilibra.
No esquema de avaliação do grupo são vislumbrado aspectos como “afiliação, pertença, cooperação, pertinência, comunicação, atitude diante da mudança e capacidade de planejamento”, analisados através de atitudes no grupo.
Outra contribuição de Pichon-Rivière é o conceito de ECRO – Esquema Conceitual, Referencial e Operativo é outro conceito bastante apropriado para o estudo de grupo. É um instrumento simbólico de aprendizagem, um repertório de experiência que constituirá uma esquematização necessária como referência para a “apreensão da realidade” (p. 250). Ele permite “a compreensão de cada fato específico a partir de uma organização ou articulação de conceitos universais (p. 251).
Papéis que constituem um grupo, segundo Pichon-Rivière:
- líder de mudança – quem articula uma ideologia;
- líder da resistência – quem não colabora e é contra o objetivo, a proposta do grupo;
- porta voz – “indivíduo que atua como veículo” (p. 257), ou seja, aquele que desdobra, manifesta a vontade do grupo. Sobre ele, o autor aponta ainda que existem dois conceitos que devem ser considerados: verticalidade e horizontalidade. Verticalidade trata-se do movimento de anunciar algo de si (individual): sua trajetória, história, valores. Horizontalidade trata-se do do apresentar de uma característica coletiva (grupo). Seus interesses versus os interesses do grupo: até que ponto são distinguidos por este porta voz.
- bode expiatório – aquele que é eleito para responsabilizar-se pelos erros de terceiros.
O coordenador, conforme denominado acima, é quem deve ter a percepção destes papéis, que representam a expressão das situações de grupo.
ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA
Os conceitos de grupo, bem como seus implicantes operacionais muito colaboram para a pesquisa do legado de Antonio Carlos Gomes da Costa, já que sua proposta é para o coletivo, de socioeducação. A identificação de papéis no grupo é bastante adequada para otimizar as relações e o andamento das tarefas propostas.
A forma como o apresentar de uma tarefa é recebida pelo grupo também é bastante valiosa na compreensão das possíveis respostas que o adolescente em conflito com a lei possa registrar. A pertinência da Pedagogia da Presença pode ser constituída neste contexto: o socioeducador próximo, atento às reais necessidades deste adolescente enquanto valores, ideais, esperança será fundamental para a consolidação de uma reciprocidade entre eles e, por conseguinte, uma intervenção melhor sucedida, significativa, de mudança positiva.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA, Antonio Carlos Gomes. Resiliência. Pedagogia da presença. São Paulo: Modus Faciend, 1995.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 2007.
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
SITES
http://www.abmp.org.br/textos/182.htm
(artigo de Antonio Carlos Gomes da Costa – “Por uma Pedagogia da Presença”)
Acesso em 17-11-2011 às 17H