Escola é…

Escola é…

o lugar onde se faz amigos,
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos…
escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda,
o coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente, que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente, cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir que
não tem amizade a ninguém, nada de ser como o
tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se “amarrar nela”!
Ora, é lógico…
numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se, ser feliz!

Paulo Freire

 O Espaço Escola

A Escola pode ser considerada com diferentes óticas, dependendo do contexto histórico em que está inserida. Num perfil atual, levando-se em conta o desenvolvimento tecnológico, a liberdade de expressão que a sociedade de um modo geral legitima, bem como alunos e professores como personagens ativos, co-participantes e integradores do ato de aprender, é necessário um vislumbrar diferenciado sobre o espaço Escola. Deve ser considerado como promotora do “ensino das letras”, ou seja, ensina a ler e escrever? Ou ainda deve ser entendida como local para “dar Educação” para os alunos? E assim, que “Educação” é esta? A Escola, pode, ainda servir para “disciplinar” o aluno? Para preparar para o trabalho?

Questões como estas levantam aspectos relevantes para caracterizar que Escola queremos, ou melhor, que Escola devemos ter na contemporaneidade – uma instituição capaz de promover ações que abarquem as características abaixo -

Desenvolvimento cognitivo: trata-se do processo de conhecer algo, o que implica em aperfeiçoar conhecimentos que se tenha ou agregar novidades.

Desenvolvimento afetivo-emocional: conhecimento de si mesmo, perceber-se dentro de limites e possibilidades – potenciais a serem desenvolvidos.

Desenvolvimento motor: percepção das capacidades físicas, bem como seu desenvolvimento.

Convívio social: sociabilidade com os colegas, integração, perceber-se no tempo e espaço, na sociedade onde vive, contextualização.

Plano profissional: fazer com que o aluno perceba o trabalho como forma de ação do homem na construção do mundo, cultura.

O que os especialistas sugerem sobre a Escola

      Georges Snyders = professor da Universidade de Paris, escreve sobre a alegria na escola, do ponto de vista do educando.

Para ele, a escola sempre irá propiciar divergências entre professores e alunos, por conta dos diferentes interesses, deferentes maneiras de ser, gostos, desacordo de idades, etc. E ainda corre-se o risco do professor estar “fechado no passado” e os alunos, “abertos” ao futuro.

      Neidson Rodrigues = foi Secretário da Educação de Minas Gerais. Para ele, a escola tem como função principal o preparo para a cidadania, para a “modernidade”. Pedagogia proposta por ele: “Escola Necessária” = democrática, que prepara para a democracia, para as deliberações coletivas.

      José Carlos Libâneo = professor da Universidade Federal de Goiás, escreve sobre Didática = formação de professores = magistério. A atividade educativa, para ela, acontece nas mais diferentes esferas da vida social – família, igreja, instituições educacionais, empresas, meios de comunicação de massa, etc. Desta forma, o processo educativo na escola “é socialmente condicionado” pelas relações sociais desenvolvidas em seu interior.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MASETTO, Marcos. DIDÁTICA: A Aula como Centro, 3ºEd. São Paulo: FTD, 1996

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Apontamentos teóricos de Goffman, Pichon-Rivière e Costa

ERVING GOFFMAN

Para Goffman (2007) na sociedade civil as pessoas dormem, brincam e trabalham em diferentes espaços, interagem com outras pessoas. Numa instituição total isto não é vislumbrado (…) “seu caráter total é simbolizado pela barreira à relação social com o mundo externo e por proibições à saída que muitas vezes estão incluídas no esquema físico – por exemplo, portas fechadas, paredes altas, etc. (p. 16).

            Outra característica central de um instituição total é o fato de apresentar “dois mundos sociais e culturais” (p.20) num mesmo local: um primeiro, constituído por quem está internado, e um outro, considerado pelo grupo de faz a gestão das ações, das providências para os internados, ou seja, a equipe dirigente. Aponta o autor que “cada agrupamento tende a conceber o outro através de esteriótipos limitados e hostis” (p. 19), o que reforça uma postura distanciada entre eles.

            A vida em grupo estreitada por laços afetivos – família – não está compatibilizada à instituição total:

“A vida familiar é às vezes contrastada com a vida solitária, mas, na realidade, um contraste mais adequado poderia ser feito com a vida em grupo, pois aqueles que comem e dormem no trabalho, com um grupo de companheiros de serviço, dificilmente podem manter uma existência doméstica significativa”. (GOFFMAN, 2007, p. 22)

Desta forma, nota-se que a função social das duas instituições – família e total – são consideradas com diretrizes opostas: enquanto a família aplica suas forças para cada membro ser livre, autônomo, que desenvolva diferentes papéis na sociedade, a instituição total trabalha na contra-mão, na perspectiva da homogeneização e institucionalização. A separação do internado e o mundo externo representa uma ruptura a esta possibilidade que a família lhe oferece, o que Goffman (2007) considera como a primeira descaracterização do indivíduo,  ou seja, processo de “perda e mortificação do eu”.

Ao adentrar uma instituição total, o internado depara-se com mais uma difícil tarefa: “despojar-se de seus bens” (p. 27). Nesta privação da posse de seus pertences facilmente percebe-se a desconstituição do “eu” do internado: lhe é oferecido um uniforme, agora, seu único pertence. A sua aparência também é desfigurada: cortes de cabelo que provocam a padronização dos internos. É clara a perda do conjunto de sua identidade. Pode-se agregar ainda: o cumprimento às regras, tarefas, regulamentos da instituição; os castigos físicos; a forma como o internado refere-se à equipe dirigente; a denominada “exposição contaminadora” (p.31) – “dossier” do internado à disposição da equipe dirigente, “exposição contaminadora do tipo físico” (p.34) – que significa um contato interpessoal  imposto, o intitular de apelidos, etc.

A fim de garantir a ordem e a disciplina no desenrolar das atividades da instituição total, a equipe dirigente estabelece uma espécie de “sistema de privilégios”, que pode garanti-los ou retirá-los, na medida em que ganha-se o castigo (GOFFMAN, 2007, p.51).

Afirma o autor sobre a relação internados e equipe dirigente:

“O sistema de privilégios e os processos de mortificação, já discutidos, constituem as condições a que o internado precisa adaptar-se. Tais condições permitem diferentes maneiras individuais de adaptação, além de qualquer esforço de ação subversiva coletiva. O mesmo internado empregará diferentes táticas de adaptação em diferentes fases de sua carreira moral, e pode alternar entre diferentes táticas ao mesmo tempo”(p.59)

Tanto o processo de mortificação do “eu” quanto o sistema de privilégios devem ser encarados como situações que compõem a adaptação do internado à instituição total.

ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA

Para Costa, que propõe um projeto de socioeducação que deva ser construído no Brasil aliado à educação geral e profissional, o significado de “socialização” e “presença” devem ser discutidos com afinco, para a apropriação de uma Pedagogia com sentido, efetiva, de significado. Ele afirma que “a verdadeira socialização não é uma aceitação dócil, um compromisso sem exigências, ou uma assimilação sem grandeza. Ela é uma possibilidade humana que se desenvolve na direção da pessoa equilibrada e do cidadão pleno. (p. 7) A aposta no sujeito era o foco de Costa.

“A Pedagogia da Presença é parte de um esforço coletivo na direção de um conceito e de uma prática menos irreais e mais humanos de educação de adolescentes em dificuldades. Contribuir para o resgate da parcela mais degradada, em termos pessoais e sociais, de nossa juventude é, sem dúvida alguma – embora apenas um número reduzido de pessoas realmente acredite nisto – uma das grandes tarefas do nosso tempo”[1]

A “presença” considerada pelo autor com sentido bastante amplo: é mais do que garantir que o professor ou socioeducador esteja ao lado do aluno / internado, algo exterior. Pelo contrário, é considerada por ele como reciprocidade, acompanhamento no sentido de estabelecimento de vínculo, afetividade, compreensão, doação e aceitação do outro.

Costa ensina que sobre esta “presença”: “pela proximidade do educador se acerca ao máximo do educando, procurando identificar-se com a sua problemática de forma calorosa, empática e significativa, buscando uma relação realmente de qualidade”. As possibilidades do aluno / adolescente em conflito com a lei enquanto indivíduo, constituídas a partir do momento de seu nascimento, deverão ser resgatadas pela educação / socioeducação, o que segundo Costa, colabora para uma “justiça social”.

A caracterização do trabalho de Costa demonstra linha oposta ao que as instituições totais entendem com adequada para o atendimento de adolescentes em conflito com a lei.

PICHON-RIVIÈRE

Pichon-Revière (2005) faz apontamentos acerca dos implicantes nas relações de um grupo. Para tal, o define:

“grupo como o conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, e articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe, de forma explícita e implícita, uma tarefa que constitui sua finalidade” (p. 242-243)

O grupo para organizar-se, constitui uma interação (p.243), que pode caracterizar-se pela técnica operativa: instrumento do grupo para a concretização de seu objetivo. No vislumbrar de uma ação para efetivar a idealização comum, o autor aponta que duas “ansiedades básicas” devem ser consideradas como pano de fundo de uma nova apropriação: 1ª) O “medo” de sair do lugar comum, do que já se conhece, se tem “equilibrado;

2ª) O “medo”da nova situação, do desconhecido, de não estar devidamente preparado para recebê-lo.Tais aspectos representam movimentos necessários para a constituição da unidade do grupo.

Sobre a tarefa do coordenador: é o articulador das ações, “sua tarefa consiste em refletir com o grupo sobre a relação que seus integrantes estabelecem entre si e a tarefa prescrita”. (p. 246) A definição de papéis, a possibilidade de superação de obstáculos no grupo, bem como a aproximação / distanciamento deste grupo com relação à tarefa, é o coordenador quem equilibra.

No esquema de avaliação do grupo são vislumbrado aspectos como “afiliação, pertença, cooperação, pertinência, comunicação, atitude diante da mudança e capacidade de planejamento”,  analisados através de atitudes no grupo.

Outra contribuição de Pichon-Rivière é o conceito de  ECRO – Esquema Conceitual, Referencial e Operativo é outro conceito bastante apropriado para o estudo de grupo. É um instrumento simbólico de aprendizagem, um repertório de experiência que constituirá uma esquematização necessária como referência para a “apreensão da realidade” (p. 250). Ele permite “a compreensão de cada fato específico a partir de uma organização ou articulação de conceitos universais (p. 251).

Papéis que constituem um grupo, segundo Pichon-Rivière:

- líder de mudança – quem articula uma ideologia;

- líder da resistência – quem não colabora e é contra o objetivo, a proposta do grupo;

- porta voz – “indivíduo que atua como veículo” (p. 257), ou seja, aquele que desdobra, manifesta a vontade do grupo. Sobre ele, o autor aponta ainda que existem dois conceitos que devem ser considerados: verticalidade e horizontalidade. Verticalidade trata-se do movimento de anunciar algo de si (individual): sua trajetória, história, valores. Horizontalidade trata-se do do apresentar de uma característica coletiva (grupo). Seus interesses versus os interesses do grupo: até que ponto são distinguidos por este porta voz.

- bode expiatório – aquele que é eleito para responsabilizar-se pelos erros de terceiros.

O coordenador, conforme denominado acima, é quem deve ter a percepção destes papéis, que representam a expressão das situações de grupo.

ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA

Os conceitos de grupo, bem como seus implicantes operacionais muito colaboram para a pesquisa do legado de Antonio Carlos Gomes da Costa, já que sua proposta é para o coletivo, de socioeducação. A identificação de papéis no grupo é bastante adequada para otimizar  as relações e o andamento das tarefas propostas.

A forma como o apresentar de uma tarefa é recebida pelo grupo também é bastante valiosa na compreensão das possíveis respostas que o adolescente em conflito com a lei possa registrar. A pertinência da Pedagogia da Presença pode ser constituída neste contexto: o socioeducador próximo, atento às reais necessidades deste adolescente enquanto valores, ideais, esperança será fundamental para a consolidação de uma reciprocidade entre eles e, por conseguinte, uma intervenção melhor sucedida, significativa, de mudança positiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSTA, Antonio Carlos Gomes. Resiliência. Pedagogia da presença. São Paulo: Modus Faciend, 1995.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 2007.

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

SITES

http://www.abmp.org.br/textos/182.htm

(artigo de Antonio Carlos Gomes da Costa – “Por uma Pedagogia da Presença”)

Acesso em 17-11-2011 às 17H


Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Octavio Ianni – A questão social

             A questão social é um tema que segundo o autor, deve ser discutido, colocado em foco permanentemente, haja vista a relevência da análise e compreensão das relações entre sociedade civil e Estado. Faz uma análise histórica do processo de construção da questão social brasileira e sugere para uma compreensão larga, ampliada do tema, que os aspectos econômicos, políticos e sociais devam ser examinados criteriosamente: um complexo de equações a serem solucionadas.

            O autor aponta, junto de Hélio Jaguaribe, a existência de dois Brasis num mesmo contexto: um arcaico, lento, atrasado, de subsistência, rural, etc, e um outro, moderno, arrojado, tecnológico, industrializado. Apesar de causar estranheza, estes dois Brasis necessitam um do outro, para a continuidade das relações intrínsecas. Este movimento reforça as reflexões sobre a questão social e as manifestações da sociedade para minimizar as distâncias entre as “camadas” sociais.

            Desde a escravidão, os movimentos sociais eclodem e colocam-se como dispositivo rotineiro na luta da igualdade de direitos. A partir da década de 20, a questão social deixa de ser encarada como um “problema de polícia” (repressão), passa a ser considerado um “problema político”. Com o investimento do poder público na busca de desenvolvimento – transporte, energia, comunicação, infraestrutura urbana, etc), a economia tem nova aparência, expandindo-se. Industrialização, urbanização, exportações. Na medida do desenvolvimento, aparecem, concomitantemente as desigualdades sociais, referente à distribuição desigual de renda, afinal, o capital é o dono da situação. Nesta ótica, a própria sociedade é vislumbrada como “fábrica de desigualdades”, grupos projetam-se, enquanto outros vivem na precariedade.

            Movimentos sociais são fomentados com o intuito de equilibrar as relações entre Estado-Sociedade-Capital. Sindicatos, partidos, manifestos são organizados para resignificar aspectos básicos, mas fundamentais para a vida e a convivência na sociedade – alimentação, saúde, habitação, educação, etc.

Existe uma tendência, segundo o autor, a se “naturalizar” a questão social, vista à luz de dois aspectos: a) entendida como “problema de Assistência Social”; b) entendida como problema de violência – repressão, segurança, opressão.

            Os setores que organizam a sociedade têm dificuldade em lidar, assumir posicionamento em face desta dicotomia: na ausência de posicionamento adequado, demonstram verdadeira “intolerância” para tais movimentos da sociedade, agindo como repressores de tais atitudes.

Para saber mais:

IANNI, Octavio. Artigo A questão social. Revista São Paulo em Perspectiva. Volume 5 – número 1. São Paulo, 1991.

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

A questão social – ideias de Robert Castel

            O desemprego que perpassa a realidade atual, numa dimensão macro, em larga escala, demonstra a necessidade do emprego formal, assalariado, para a sociedade. Em tempos anteriores, esta condição de assalariado não era bem vista, já que significava que o trabalhador nada mais tinha a realizar, a não ser se submeter ao enquadramento da troca descompensada de sua força de trabalho. Esta compreensão histórica da pertinência do trabalho assalariado para a sociedade é fundamental na compreensão do paradigma atual.

            O trabalho representa o movimento de pertencimento, de integração do trabalhador à sociedade. Os longos períodos de desemprego, a submissão a políticas de renda mínima para recebimento de proteções, trabalhos informais que não são momentâneos, pelo contrário, muitas vezes o trabalhador se mantém, a vida inteira, nestas condições, são demonstrações claras da questão social hoje. Isto demonstra a chamada exclusão social, “invalidação” social. O autor aponta estas configurações como “zonas”, espaços hipotéticos, para conseguir obter uma visão panorâmica da questão social.

            A palavra “metamorfose” foi escolhida pelo autor como uma “metáfora”, na tentativa de ilustrar o desenrolar da questão social: numa metamorfose as certezas não são permanentes, estáveis. Seqüência que ao mesmo tempo demonstra mudança, transformação, também pode apresentar fragilidades, dúvidas, trilhar de novos caminhos a respeito destas manifestações.

            Duas dimensões históricas são consideradas no que diz respeito à integração do trabalhador na sociedade: a) dimensão “reformista” – no sentido de “reforma”, que valida um posicionamento de mudança de perfil, de diretrizes sobre a política de salários, nova forma, nova visão, renovação do conceito de trabalho; b) dimensão “revolucionária” – mudança da “estrutura social” a fim de equalizar oportunidades oferecidas a todos, inovação.

            O desafio contemporâneo pauta-se na problemática de aceitação de uma sociedade que se submete às exigências do mercado, das tendências econômicas, do capital, ou a constituição de um Estado Social que atenda as necessidades do tempo presente.

Fichamento da introdução do livro:

CASTEL. Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do trabalho. Tradução de Iraci D. Poleti. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , , , , | Deixe um comentário

A águia e a galinha – Leonardo Boff

A partir do texto introdutório do livro “A águia e a galinha”, de Leonardo Boff, pode-se esboçar um raciocínio sobre a importância do ato de ler, de interpretar, decodificar o mundo. A alfabetização / letramento de um indivíduo perpassa valores desta natureza: mais do que a “soma de tijolinhos” (sílabas) o professor alfabetizador necessita de uma prática que permita efetivar a autonomia do aluno sobre a escrita e a leitura.

É evidente que a metodologia da alfabetização mais atual não deixa de “silabar”, mas este já não é o cerne das ações. Demonstrar a função da escrita na vida das pessoas é tarefa primordial, já que textos de jornais, de revistas, receitas, listas, poemas, etc, estão presentes em nosso cotidiano.

Textos para aprender a ler parecem trava línguas, pois não passam de treino de determinada letra = “O vovô viu a uva”. Podem ser utilizados, desde que em dosagem apropriada, ou seja, como mais uma possibilidade de leitura.

Com tais pressupostos, o professor alfabetizador conseguirá oferecer nova possibilidade ao aluno num movimento de amplitude de relações. A decodificação do alfabeto não garante interpretação, sentido, compreensão de um texto. O importante é o professor saber “ler, interpretar, compreender”, para oferecer esta referência ao aluno.

O texto sugere que só podemos dar sentido a partir do que conhecemos – “a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”. Cada situação vivida, lição aprendida, novidade incorporada colabora para meu repertório particular de experiências, o que proporcionará salto qualitativo na interação com o outro, com o mundo.

 

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , , | 6 Comentários

Planejamento pedagógico e avaliação da aprendizagem: um par mais do que perfeito em Educação

“Só aprende aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas”. (Paulo Freire)

A ação do homem no mundo acontece de duas formas:

a) de modo espontâneo, aleatório, sem grandes demarcações de tempo, espaço, condição;

b) de modo pensado, antecipado, planejado. Neste âmbito o atendimento a uma determinada necessidade é o eixo motivador de sua articulação de pensamento: a meta, o objetivo, o que se pretende alcançar com uma ação é a forma pela qual o homem se instrumentaliza para efetivar seu desejo.

Esta interferência do homem no mundo produz efeitos positivos e negativos. Positivos na medida em que colaboram para o desencadear de outras ações planejadas, que visem, por exemplo, o bem comum – coleta seletiva de lixo.

Negativos na medida em que acarretam prejuízos, por exemplo, ao meio ambiente: o descarte de lixo sem qualquer preocupação com a sua separação.

Percebe-se desta forma, que toda ação do homem está amarrada de valores, de escolhas, de intencionalidade. Em Educação, não é diferente. É necessário que o professor esteja atento às suas ações, a fim de tratar com apreço cada situação vivida.

Definições rápidas que auxiliam a organização das ideias:

Planejar = definir antecipadamente um conjunto de ações, de intenções.

Avaliar = conhecer o valor de, compreender, apreciar, considerar.

Planejar em Educação tem sido atrelado apenas ao movimento de organização de conteúdos e metodologias para se garantir a eficácia do processo de aprendizagem. Sim, esta é uma fração que faz parte da antecipação de ações pedagógicas, mas como podemos verificar abaixo, ainda restam outras frações para oferecer a totalidade no sentido da palavra planejar:

a)      aspecto técnico: este relatado acima. De nível organizacional, de ordem das ideias, dos meios para a obtenção de resultados. Qual a melhor forma de planejar? Que periodicidade é necessária para a retomada de resultados, bem como nova organização de propostas pedagógicas? Que recursos podem facilitar o processo de aprendizagem na especificidade de cada conteúdo? Etc.

b)      aspecto político social: comprometimento com finalidades sociais e políticas da Educação – Para que educar? Como educar? Que homem formar? Que habilidades priorizar? E outras questões desta natureza. Investimento intelectual que se conseguirá visualizar “o resultado” a médio e longo prazos.

c)      aspecto científico: não se pode planejar sem o conhecimento da realidade em que se está inserido. Quem é meu aluno? Onde vive? O que conhece? A que perfil de família pertence? Entre outras.

Avaliar é uma tarefa de articulação. A avaliação deve estar em consonância com os objetivos elencados no planejamento pedagógico. Não é possível compreender o ato de avaliar como um momento de início e fim num curto período, nem mesmo descolá-lo dos temas oferecidos ao aluno. A proposta que parece óbvia (planejamento – avaliação) não é bem aceita por professores mais tradicionais, cuja prática trata-se de verificações sem sentido para o aluno, rigorosas em critérios e complexidade e ainda utilizada como controle de comportamento.

Deixo o convite à reflexão: como possibilitar a articulação efetiva de planejamento-avaliação no cotidiano escolar?

Para saber mais:

http://www.priberam.pt/dlpo/

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da Aprendizagem Escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2008.

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Pedagogia do Exame

Numa perspectiva tradicional da Educação, o movimento de avaliação é uma preocupação dos sistemas de ensino, das escolas, dos pais e dos alunos. Equivocadamente, “a nota” é o centro das atenções e é compreendida como a referência:

a) Da ideologia que sustenta esta tendência: educação no sentido do macro, do acúmulo de saberes, dos conteúdos descolados da realidade, das provas desconectadas com o processo de aprendizagem. “Medir” o que o aluno “devolve” ao final do mês ou bimestre;

b) Dos índices de aprovação / retenção: apresentam manipulação do processo de ensino;

c) Do desempenho do aluno: no início do ano letivo de um curso, a preocupação central não é com “o que vou aprender” ou “como vou aprender”, mas sim “como ser aprovado?”;

As reuniões de pais e mestres demonstram claramente este tripé: os pais dos alunos de desempenho satisfatório participavam pouco destes momentos, já que o centro das reflexões era o grupo de alunos que não davam conta do padrão mínimo das notas. Admite-se este posicionamento como uma leitura ingênua do processo de aprendizagem.

O professor tratava a avaliação como forma de “provar” que o aluno nada sabia. Sua vaidade era evidenciada no momento em que percebia alto índice de notas abaixo da média. Significava sua competência, sinal de “status”.

Os famosos “pontos a mais” nada representavam sobre o aprender: “Um ponto a mais na média para quem trouxer amanhã o material completo para a aula de Ciências”. Pelo contrário, deixavam bastante claro uma perspectiva de condicionamento, de comportamento controlado dos alunos.

As ameaças demonstravam o uso da avaliação como “disciplinamento social”, ou seja, através do medo eu (professor) “garanto” a eficácia do processo de aprendizagem – meus alunos irão estudar com medo da retenção. Medo este encarado como controle social: gera va posturas de submissão forçadas, aceitação.

Para saber mais:

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da Aprendizagem Escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2008.

 

 

 

 

 

Publicado em Práticas pedagógicas docentes | Com a tag , , , , | 4 Comentários